domingo, 17 de julho de 2016

ADUALDO BATISTA ARAÚJO

A verdade é anterior a qualquer prova, e se manifesta, se buscada através das evidências fáticas da realidade.
Tal e qual ouvi de meu pai Otávio Belchior, palmense humilde porém conhecedor profundo da história da nossa terra, conhecimentos advindos do seu interesse por história, das funções que nela ocupou, e potencializados pelas informações colhidas com suas raízes e tradições familiares de mais de 200 anos. Contarei o que dele ouvi, aditando brevíssimos comentários a respeito do Adualdo, esse famoso senhor.
Ele era meu parente, sim, por parte de mãe. Não pôde, como erradamente afirmam, ter nascido em Coreaú, na época de seu nascimento 1910, esse nome era o do rio que banhava a Palma. Em verdade, nasceu na Palma, no local antigamente denominado Distrito de Pedrinhas, hoje Município de Moraújo, numa fazenda que a ela se chegava indo da sede de Moraújo em direção à Sesmaria do Jagarassuí, do meu tetra avô Antônio Fernandes Batista, no Campanário, na antiga Vila de Granja, hoje Uruoca.
Filho de Francisco André Araújo (Chico André) e de dona Joaquina Batista Araújo. Chico André era irmão de Francisco Manuel Araújo (Chico Manuel), ambos fazendeiros da região, e os principais responsáveis pela extinção da fauna local, pois contratavam caçadores, adiantavam-lhes dinheiro para matar todo e qualquer animal silvestre que pela frente aparecesse, e tivesse couro de valor, dentre os quais onças, gatos maracajás, raposas, veados, tejos, cobras, guaxiníns, etc. Os couros, depois de espichados e secos ao sol, eram levados de trem de Martinópoles até Massapê, onde os comercializavam, com um exportador da família Alcântara, que os revendia a outro membro da mesma família em Manaus.
Tanto Chico André como Chico Manuel tinham temperamento violento, razão pela qual muito cedo Adualdo saiu de casa. Chico André tentou por umas duas vezes mandar seus caboclos caçadores assassinar o meu parente e saudoso amigo, esse sim escritor de nomeada, Raimundo Batista Aragão (O Aragão do INPS), em virtude de uma queixa, depois comprovada como falsa, que lhe apresentara Chico Manuel. O fato só não teve fim sinistro graças à intervenção de outro fazendeiro local chamado Francisco Custódio Veras (Chico Custódio), amigo do Aragão e amigo e compadre de Manoel Florêncio, bodegueiro no Campanário.
O Adualdo era também parente do Pe. Domingos Araújo, cônego da Catedral da Sé de Sobral, além de respeitável confessor. Era considerado um menino precoce, tendo disso dado provas soberbas. Notabilizou-se por ter sido o fundador do Colégio Farias Brito e faleceu muito jovem, aos 32 anos, em 1942, morando em Fortaleza. Deixou um único filho, o hoje Dr. Adualdo Ariosto de Araújo, advogado, ainda vivo e residente no Rio de Janeiro.
Seu nascimento foi registrado por seu pai Chico André, no Cartório de Massapê, como filho de Massapê, numa das viagens com o fito maior de entregar mercadorias a seu comprador, fato que tornou Adualdo erradamente conhecido como massapeense. O registro deu-se em Massapê por ser o Cartório na época para ele de mais fácil acesso, visto que chegava lá facilmente, no trem da Estrada de Ferro de Sobral (E.F. de Sobral), vindo de Martinópolis, estação próxima das fazendas onde viviam.
 
Wilson Belchior
 
CRÔNICA
3 DE OUTUBRO (1)
Adualdo Batista Araújo (2)

Cai por sobre a grande nação brasileira o manto bendito da paz, qual nuvem celestial que descesse dos céus para derramar chuvas de alívio e graça no coração dos brasileiros. Terminou a luta fraticida --- essa serpente monstruosa --- que se enrosca em as nacionalidades, torcendo-as impiedosamente e depois lançando-as no abismo da desordem. Felizmente, porque a luta é um grande mal e acarreta funestas consequências.
Felizmente, porque é a luta civil o peior dos males e traz comsigo as peiores desgraças. Temos, entretanto, que suportá-las pois são creações inevitáveis do egoísmo humano. São pois inevitáveis. Por elas passaram os povos, mesmo os mais felizes. As nações na ânsia de progredir, e não podendo marchar dentro dos domínios pacíficos da concórdia, retrogradam, banham-se de sangue e depois prosseguem. Todos os povos aspiram a momentos mais felizes, mas para essa transição foi sempre preciso passarem dias penosos, incertos, dolorosos. Assim, precisamos exultar-nos com o fim de qualquer luta, porque todas trazem seus males. Sempre depois de qualquer luta, por menos catastrófica que tenha sido, ao lado dos que festejam alegremente a paz, soluço a legião inconsolável das viúvas e dos órfãos chorando a perda dos maridos e pais extremecidos. Ao lado da alegria estonteante dos moços, estão os cadáveres dos companheiros que morreram ingloriamente no campo de batalha.
Ao lado da alegria rumorosa do povo inconsciente, estão os prejuízos fabulosos sofridos pela nacionalidade. Mas isso não impede que exultemos, isso não manda que substituamos a alegria pela tristeza. Se assim fosse, torná-la-íamos universal. Universal, porque são companheiros inseparáveis, porque sempre, e em toda parte, caminharam juntos. Dentro do lar, dentro do indivíduo, dentro do universo. Tomaria nosso planeta o aspecto sepulcral das ruínas.
Morreríamos todos devorados por uma dor universal infinita... O mal está em, ou entregarmo-nos a uma tristeza profunda e inconsolável, ou a uma alegria despreocupada, anormal. In médio stat virtus. (a virtude está no meio) Consolemo-nos mutuamente porque todos sofremos e desse consolo mútuo, fraternal, há de nascer necessariamente o que nos falta --- A Resignação.
 
(1) Crônica publicada no periódico “O Jornal”, Ano I, n. 1, 08/12/1932, PÁG. 2, Sobral-Ceará. A crônica refere-se à rendição dos rebeldes paulistas da Revolução Constitucionalista de 1932.
(2) Adualdo Batista de Araújo é palmense (nasceu em Pedrinhas (1910), atual município de Moraújo). Foi registrado como sendo filho de Massapê. Morreu em Fortaleza no ano de 1942. Foi advogado, filósofo, professor e empreendedor, tendo fundado o Colégio Farias Brito de Fortaleza.

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