sábado, 15 de fevereiro de 2014

REMINISCÊNCIAS 2 - DE AÇUDES E DE MERAL

Quando eu era menino lá em Coreaú, uma das brincadeiras preferidas da meninada da minha idade (coisa de 10 anos) era esperar as chuvas para fazer açudes, barrando as corredeiras das águas que desciam velozes e barrentas nas ruas de terra, quando ainda não tinham sido calçadas. Ficávamos todos à tardinha, hora mais provável de cair as chuvas mais fortes, de olho no horizonte, onde se descortinava altaneira a Serra da Meruoca. Se a serra ficasse encoberta com uma densa e escura cortina de névoa, era sinal de chuva forte e hora de se iniciarem os trabalhos de construção da parede do açude. Era uma verdadeira obra de engenharia intuitiva, pois já havia o cuidado de se fazer uma barragem bem resistente reforçada com pedaços de tijolos, telhas, areia e até barro pegadiço para a impermeabilização. O interessante é que se escolhia uma "bacia hidrográfica" (claro que não se sabia nada disso), ou seja, confluências de ruas com declive para garantir grande vazão das águas e ruas estreitas, bastante para uma parede curta e alta. Como éramos intuitivamente engenheiros! Era um trabalho coletivo de muitas mãos. Tinha até divisão de tarefas, os que diziam como fazer, os que metiam a mão na massa e os olheiros, que só peruavam. O melhor desta epopeia juvenil era a excitação: enquanto a chuva caia e o açude tomava água acompanhávamos cada aumento do volume d’água espetando gravetos no chão em torno da área a ser alagada como se fosse a nossa régua de medir a velocidade da cheia. Claro que, eventualmente, os "engenheiros" erravam os cálculos e a barragem ia de água abaixo antes do previsto, mas isso também fazia parte do show, porque desencadeava um efeito dominó, arrombando todos os açudes construídos à vazante do primeiro açude que rompeu. A correria e a euforia para ver o espetáculo dos arrombamentos em série era o momento do êxtase final mais esperado: o paradoxo da desconstrução; ver tudo ir de água abaixo. Mas nem tudo era tranquilidade na área, havia o Meral. Ah, nunca mais tive notícias do Meral! O mulato, baixinho, atarracado era o tira-prazer de nossas brincadeiras. Parecia que tinha um prazer mórbido em cortar o nosso barato. Quando praticava suas pequenas maldades, esboçava um sorriso que não mostrava os dentes, parecia que sorria com as orelhas. Era amedrontador. Para segurança de nossos empreendimentos hídricos, ficava sempre um olheiro para avisar quando Meral se aproximava. Ao alerta de "lá vem o Meral", todos, num esforço único, destruíam a barragem do açude para não lhe dar o gosto deste prazer. Hoje, compreendo Meral, ele não era um menino mau; nunca nos agredia fisicamente; só queria tirar um sarro; era seu jeito próprio de se divertir. Hoje, sinto saudade até do sorriso do Meral. Na minha utopia de sonhar, os fantasmas de tantos outros Merals continuaram destruindo muitos dos meus açudes de sonhos.

Mardone França

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